This insight, which expresses itself by what is called Imagination, is a very high sort of seeing, which does not come by study, but the intellect being where and what it sees; by sharing the path or circuit of things through forms and so making them translucid to others.

Essays, Second Series by Emerson


segunda-feira, janeiro 24, 2011

Pombas


não gosto de pombas.
a maioria das pessoas não gosta de pombas.
mas esta manhã a caminho do trabalho reparei numa pomba a brincar com outra.
empurrava-a, abria-lhe as asas, mexia-se à volta dela e só quando começou a dar-lhe bicadinhas na cabeça, e lhe começou a tocar com as patinhas é que percebi que a outra pomba estava morta.
a pomba maior tentava acordá-la.
não queria acreditar que a outra, até há umas horas viva, já não vivia mais.
e eu segui para o trabalho a pensar que às vezes é assim. não desistimos. insistimos. insistimos. insistimos.
tentamos trazer à vida algo que já está morto.
e não vale a pena.
não disse nada à pomba.
às vezes precisamos de tentar, de insistir, para perceber que não funciona;

que nunca funcionou.

domingo, janeiro 23, 2011

Club Sandwich e Stevie Wonder


o último dia do ano.
a cidade mais bonita do mundo. a minha cidade.
o rio do outro lado do vidro do meu lugar preferido, na cidade mais bonita do mundo, no último dia do ano.

dentro da mala os papéis. falar um pouco, comer qualquer coisa. assinar. assunto encerrado. esquecer tudo, deixar a dôr, a frustração, o fracasso no ano velho, no ano que acaba.

tu chegaste e sentaste-te à minha frente.
talvez fosse a luz fria de Inverno, ou talvez fossem as lágrimas que me enchiam os olhos e molhavam a pele, que te tornavam bonito. via o brilho dos teus olhos, olhos que eu amei com os meus. abria a boca para falar-te, mas as palavras morriam sofocadas na minha garganta, como bolhas de sabão que rebentam antes de acabarmos de soprar.

olhavas-me com a doçura, a tristeza e a saudade do Adeus; com a serenidade de quem perdeu uma batalha pela qual, na realidade, nunca lutou. e vias-me chorar, incontrolavelmente, sem perceber que as tantas lágrimas eram minhas, e tuas, e nossas; as lágrimas que não choravas, que talvez nunca fosses chorar.

para tentar recuperar algum controlo, mexi na mala, tentei tirar os papéis. pediste-me para não o fazer. não querias vê-los. a negação. uma constante. no fundo, na essência, não mudámos nunca... tu a negar a nova realidade e eu a ter de tratar dela, a ter de mexer na ferida que era, que é, dos dois. não tinha forças para lutar, para confrontar-te. a batalha tinha terminado há muito e estavamos os dois na lista das baixas. uma batalha sem sobreviventes.

ao longe ouvia a voz afinada do Stevie. tantas vezes nos acompanhou, nos embalou, foi as dedicatórias de Amor, foi a nossa história contada na sua voz. e a cada música, as lágrimas mais fortes, a ironia do presente de tão evidente a tornar-se palpável. e nós, imóveis.

tu comias a tua sandwich. eu olhava o rio que brilhava com o sol frio do outro lado do vidro através das minhas lágrimas e ouvia a minha dor cantada numa voz que não era a minha. e eu, repetindo baixinho, para que ninguém pudesse ouvir, que um dia, um dia, tudo ia ficar bem.